Qual a importância de se pesquisar novas terapias para tratar lesões da medula espinhal?

As lesões da medula espinhal comprometem a sensibilidade e os movimentos voluntários na região da coluna abaixo do local da lesão. Nos casos mais graves estas lesões provocam paralisia completa e permanente, pois a medula espinhal não se regenera espontaneamente. Como não existe hoje nenhuma droga capaz de reduzir os danos causados por esse tipo de lesão, somente o desenvolvimento de novas terapias poderá devolver os movimentos perdidos a estes pacientes.


Em que consiste esta nova terapia?

Trata-se da aplicação por injeção local de um produto de origem biológica denominado polilaminina. A polilaminina é um polímero protéico produzido a partir de uma proteína natural presente em animais e seres humanos, a laminina. A laminina é capaz de formar verdadeiros conduites através do tecido nervoso. É exatamente por dentro destes conduites que os axônios (estruturas responsáveis pelas conexões entre as células do sistema nervoso) crescem durante a regeneração dos nervos periféricos. Isso ocorre por exemplo quando recobramos a sensibilidade perdida na área de um corte cirúrgico. Após uma cirurgia, a sensibilidade no local do corte é perdida por algum tempo, mas retorna depois de alguns meses exatamente porque os axônios voltam a crescer no interior de conduites feitos da proteína laminina. No caso de uma lesão ao sistema nervoso central (cérebro ou medula espinhal), estes conduites não se formam espontaneamente. Nossa idéia é tratar a lesão através da injeção diretamente no local da lesão da matéria prima para a formação destes conduites.


Por que ninguém pensou nisso antes?

Na verdade vários cientistas testaram a injeção de laminina em animais lesionados durante as décadas de 80 e 90, mas não observaram nenhuma melhora.


Então por que esse novo tratamento funciona?

Porque nós não injetamos laminina, mas sim a polilaminina, que é a forma biologicamente ativa da laminina. O que nós descobrimos foi a receita de como transformar a laminina comum (produzida por extração da placenta humana) em laminina com atividade biológica, ou seja, polilaminina.


Este tratamento é melhor que células tronco?

A polilaminina é um material de origem biológica, mas não se trata de material vivo. Trata-se de uma proteína presente em seres vivos, mas localizada fora das células. A polilaminina pode ser usada como um fármaco que irá promover efeitos previsíveis sobre as células vivas do paciente. Ao contrário, as células tronco são estruturas vivas em si, o que as torna capazes de efeitos bem menos previsíveis.


Mas as células tronco produzem melhora maior que a polilaminina?

Não. Por exemplo, as células tronco embrionárias pré-diferenciadas em oligodendrócitos que foram injetadas nos pacientes no estudo conduzido pela empresa Geron nos EUA promoveram uma melhora funcional de apenas 30% em roedores, enquanto a polilaminina mais do que dobrou a melhora funcional no mesmo teste. Com relação a outros tipos de células tronco, os resultados variam. Em nossos estudos, testamos a injeção de diversos tipos de células tronco mesenquimais e comparamos os resultados funcionais das células entre si e com a polilaminina. Nenhuma delas promoveu resultado melhor que a polilaminina, embora uma delas tenha levado a uma melhora da locomoção equivalente. Curiosamente, estas células, que são isoladas do tecido adiposo humano, passam a produzir uma grande quantidade de laminina quando são injetadas dentro da medula espinhal. Acreditamos que talvez a produção local de laminina seja a chave para a recuperação.


A polilaminina tem valor comercial?

O produto, assim como seu processo de produção e uso, foi patenteado pelo laboratório inventor e a UFRJ. A patente nacional foi pedida em 2007, mas ainda se encontra em análise no INPI.


Quanto custaria o tratamento de um paciente com polilaminina?

O custo do produto é de aproximadamente R$ 500,00 hoje.


Já existem estudos clínicos com pacientes humanos?

Existe um estudo clínico aberto para testar a segurança e eficácia do tratamento com polilaminina em pacientes com lesões agudas, ou seja, pacientes que sofreram lesões menos de 3 dias antes da aplicação do tratamento. Essa janela de tempo foi escolhida porque a maior parte dos resultados em animais foi obtida em lesões agudas, tendo sido observada uma correlação entre a rapidez da aplicação e sua eficácia. O protocolo foi elaborado para ser totalmente desenvolvido em hospitais de emergência da rede pública do Rio de Janeiro. Os hospitais âncora são o Hospital Estadual Azevedo Lima em Niterói e o Hospital Municipal Souza Aguiar no centro do Rio. Este protocolo foi avaliado e aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa Nacional (CONEP).


Isto significa que o tratamento não serve para pacientes que já têm lesões há mais de 3 dias?

Em nossos estudos pré-clínicos com a polilaminina mostramos  que o tratamento de cães com lesões estabelecidas há mais de 6 meses também pode promove melhora, embora esta melhora não ocorra em todos os animais.


Esse tratamento pode fazer mal?

Não existem razões para se imaginar que o tratamento tenha efeitos negativos uma vez que utiliza uma proteína produzida pelo próprio corpo. Foram realizados testes de toxicidade em ratos e cães e não foram observados quaisquer sinais adversos.


O que a polilaminina faz?

Ela induz o crescimento dos axônios lesados de forma a restabelecer as conexões perdidas. Além disso, a polilaminina tem um efeito anti-inflamatório potente que faz com que os animais tratados fiquem muito mais motivados no pós-operatório e se locomovam já no dia seguinte ao tratamento.


Como se pode saber que este trabalho tem alta qualidade técnico-científica?

Nosso laboratório vem trabalhando na caracterização da polilaminina há mais de 15 anos. Os trabalhos científicos que descrevem a produção do polímero bem como sua função de promover regeneração de células isoladas (in vitro) e animais submetidos a lesões medulares experimentais (in vivo) foram publicados nas melhores revistas internacionais de cada área, todas com alto índice de impacto (Journal of Biological Chemsitry, Journal of Cell Science e FASEB Journal).